Você pega o celular para ver uma notícia. Quando percebe, passou uma hora rolando o feed, leu dezenas de manchetes, viu vídeos de discussões, entrou em comentários e ficou mais ansioso do que estava antes. A tarefa que você ia fazer continua parada. O sono, que já não era bom, ficou para depois.
Esse comportamento tem nome: doomscrolling. E, para quem tem TDAH, ele costuma ser ainda mais difícil de interromper. Em períodos de muita notícia, como uma eleição, uma tragédia ou uma crise econômica, a armadilha fica ainda mais forte.
Neste artigo, você vai entender o que é o doomscrolling, por que o cérebro com TDAH é especialmente vulnerável a ele, quais são os efeitos no dia a dia e, principalmente, o que fazer para retomar o controle sem precisar abandonar a informação.
Neste Artigo sobre TDAH e Doomscroling
O que é doomscrolling
A palavra vem do inglês e junta duas ideias: doom, que lembra desgraça ou catástrofe, e scrolling, que é o ato de rolar a tela. Em português, poderíamos traduzir como “rolar desgraças”. O termo ficou popular durante a pandemia de covid-19, quando muita gente passou horas consumindo notícias ruins sem conseguir parar.
Os pesquisadores definem o doomscrolling como o hábito de consumir notícias negativas de forma repetida e prolongada, mesmo quando isso causa mal-estar. Não é apenas “ficar muito tempo no celular”. O que caracteriza o doomscrolling é a combinação de três elementos:
- Conteúdo negativo ou alarmante, como crises, conflitos, escândalos e brigas.
- Dificuldade de parar, mesmo com a intenção de largar o celular.
- Piora do estado emocional, com mais ansiedade, irritação ou desânimo ao final.
Estudos recentes criaram escalas para medir esse comportamento. Elas mostram que quem pratica mais doomscrolling tende a relatar mais sofrimento psicológico e menos satisfação com a vida (Sharma et al., 2022; Satici et al., 2023). Durante a pandemia, um estudo que acompanhou adultos dia a dia encontrou que, nos dias de maior consumo de notícias e redes sociais, os sintomas de ansiedade e depressão também eram maiores (Price et al., 2022).
Doomscrolling não é o mesmo que se informar
Acompanhar as notícias é saudável e faz parte da cidadania. A diferença está no controle. Quem se informa escolhe o que vai ler, por quanto tempo e para quê. Quem está preso no doomscrolling sente que o feed está escolhendo por ele.
Um bom teste é perguntar: “depois de uma hora rolando, eu sei algo que não sabia antes, ou só estou mais nervoso?”. Se a resposta costuma ser a segunda, vale ler o restante deste artigo com atenção.
Por que o cérebro com TDAH é mais vulnerável ao doomscrolling
O doomscrolling pode acontecer com qualquer pessoa. Mas algumas características do TDAH tornam essa armadilha mais forte e mais difícil de desarmar. Não é falta de força de vontade, como explicamos em 12 mitos sobre TDAH. São mecanismos do próprio funcionamento cerebral.
1. A busca constante por novidade
O cérebro com TDAH funciona de forma diferente no sistema de recompensa, ligado à dopamina. Estudos de imagem cerebral encontraram alterações nas vias de dopamina associadas à motivação e à recompensa em adultos com TDAH (Volkow et al., 2009). Na prática, isso faz com que atividades rotineiras pareçam ainda mais tediosas, e estímulos novos pareçam ainda mais atraentes.
O feed de notícias é uma fonte infinita de novidade. Cada vez que você rola a tela, aparece algo diferente: uma manchete urgente, um vídeo polêmico, uma reviravolta. Para um cérebro que busca estímulo, é como uma máquina que nunca para de entregar pequenas doses de interesse. Entenda melhor esse mecanismo no artigo sobre o que é dopamina.
2. A recompensa que vem “de vez em quando”
Nem toda notícia é interessante. A maioria é repetida ou irrelevante. Mas, de vez em quando, aparece algo realmente impactante. Esse padrão de recompensa imprevisível é justamente o que mais prende a atenção, o mesmo princípio usado em jogos de azar. Não por acaso, já falamos sobre a vulnerabilidade de quem tem TDAH às apostas online no artigo TDAH e bets.
3. Dificuldade de interromper o que está fazendo
O TDAH envolve dificuldade nas funções executivas, como o controle de impulsos e a capacidade de trocar de atividade. Parar de rolar o feed exige exatamente isso: frear um impulso (“só mais uma”) e mudar para outra tarefa, geralmente menos interessante. Por isso, a mesma pessoa que diz “vou largar o celular em cinco minutos” pode continuar ali por uma hora sem perceber. Falamos mais sobre isso em impulsividade no TDAH.
4. A percepção alterada do tempo
Muitas pessoas com TDAH têm uma relação difícil com o tempo. O “agora” parece muito presente, e o “depois” parece distante e abstrato. Esse fenômeno, chamado de miopia temporal, faz com que o prazer imediato de mais uma notícia pese mais do que as consequências de dormir tarde ou atrasar uma tarefa. Explicamos o conceito em detalhe em miopia temporal no TDAH.
5. Emoções mais intensas
A desregulação emocional é muito comum no TDAH: as emoções surgem mais rápido, são mais intensas e demoram mais para baixar (Shaw et al., 2014). Notícias alarmantes, discussões acaloradas e comentários agressivos ativam justamente essas emoções. A raiva ou a ansiedade geradas por uma notícia criam a sensação de que é preciso continuar lendo para “entender tudo” ou “se proteger”, o que alimenta o ciclo.
6. O hiperfoco a serviço do feed
Quando algo captura totalmente o interesse, a pessoa com TDAH pode entrar em hiperfoco, um estado de concentração intensa em que o mundo ao redor desaparece. Às vezes, o hiperfoco é ótimo para trabalhar. Mas ele também pode ser capturado por um assunto do noticiário, levando horas de leitura sobre um único tema sem perceber o tempo passar.
O que dizem as pesquisas sobre telas e TDAH
Uma revisão sistemática que reuniu 28 estudos de acompanhamento com crianças e adolescentes encontrou uma relação de mão dupla: quem tem mais sintomas de TDAH parece mais propenso a desenvolver um uso problemático de mídias digitais, e esse uso, por sua vez, está associado a piora posterior dos sintomas (Thorell et al., 2024). Os autores destacam que a relação é mais consistente para o uso problemático do que para o simples tempo de tela, e que parte do efeito pode passar por prejuízos no sono e nas relações sociais.
Os efeitos do doomscrolling na vida de quem tem TDAH
O problema do doomscrolling não é só o tempo perdido. Ele afeta áreas que, no TDAH, já costumam ser sensíveis.
Sono
O doomscrolling acontece muito à noite, quando a pessoa deita, pega o celular “só para dar uma olhada” e perde a hora. A luz da tela, o conteúdo agitado e a ativação emocional dificultam o adormecer. Como muitos adultos com TDAH já têm dificuldades de sono, o resultado é um dia seguinte com menos atenção, mais irritabilidade e mais vontade de buscar estímulo no celular. Um ciclo que se retroalimenta. Veja mais em TDAH e sono.
Ansiedade e sensação de ameaça
Consumir muitas notícias negativas mantém o corpo em estado de alerta. Um estudo feito após o atentado da Maratona de Boston, em 2013, encontrou que pessoas que passaram seis horas ou mais por dia acompanhando a cobertura pela mídia relataram mais estresse agudo do que algumas pessoas que estiveram no local (Holman et al., 2014). A exposição repetida a notícias ruins, mesmo de longe, pesa.
TDAH e ansiedade andam juntos com frequência, e o doomscrolling pode intensificar os dois. Para entender como diferenciar os sintomas, leia TDAH e ansiedade: como diferenciar e tratar.
Trabalho e tarefas do dia
Cada “só uma olhadinha” no celular interrompe o fluxo de trabalho. Para quem tem TDAH, retomar a concentração depois de uma interrupção costuma ser mais difícil e mais demorado. Somando várias interrupções ao longo do dia, o que deveria levar uma hora pode ocupar a tarde inteira, alimentando a culpa e a procrastinação.
Relacionamentos e brigas em família
Em períodos de muita polarização, como as eleições, o feed fica cheio de conteúdo feito para provocar reação. Para quem tem impulsividade e emoções intensas, é fácil responder no calor do momento, entrar em discussões em grupos de família ou se arrepender de algo que escreveu. O artigo família e TDAH traz reflexões sobre como preservar os vínculos nesses momentos.
Sensação de esgotamento
No fim do dia, a pessoa sente que não descansou e também não produziu. O cérebro esteve ocupado o tempo todo, mas sem nenhum resultado concreto. Essa combinação de cansaço e frustração é um terreno fértil para o desânimo e para a autocrítica.
Como parar de rolar o feed: estratégias que funcionam para o TDAH
A solução não é jogar o celular fora nem se isolar das notícias. Também não adianta contar só com força de vontade, porque é justamente ela que o TDAH torna instável. O caminho mais eficaz é mudar o ambiente para que a escolha certa fique mais fácil do que a errada.
1. Troque o feed infinito por horários de notícia
Escolha um ou dois momentos do dia para se informar, por exemplo, depois do almoço e no início da noite. Fora desses horários, as notícias esperam. Saber que você terá um momento garantido para se atualizar diminui a sensação de que está perdendo algo importante.
2. Prefira fontes com começo, meio e fim
O feed das redes sociais não termina nunca. Já um resumo de notícias, um jornal ou um podcast diário têm um fim claro. Quando o conteúdo acaba, o cérebro recebe um sinal natural de parada, algo que o TDAH tem dificuldade de criar sozinho.
3. Coloque obstáculos no caminho
Pequenas barreiras fazem grande diferença para quem age por impulso:
- Tire os aplicativos de notícias e redes sociais da tela inicial.
- Saia da conta depois de usar, para precisar digitar a senha de novo.
- Use os limites de tempo de uso do próprio celular.
- Desative as notificações de notícias e de “últimas atualizações”.
- Deixe a tela em preto e branco à noite, o que torna o feed menos atraente.
4. Tire o celular do quarto
Essa é uma das mudanças mais eficazes e mais difíceis. Use um despertador comum e deixe o celular carregando fora do quarto. Se isso parecer impossível no começo, combine pelo menos um horário a partir do qual o celular fica longe da cama.
5. Crie um sinal externo de parada
Como o TDAH dificulta perceber a passagem do tempo, um alarme ajuda. Antes de abrir o feed, programe um timer de 10 ou 15 minutos. Quando ele tocar, levante-se e mude de ambiente. A mudança física ajuda o cérebro a trocar de atividade.
6. Faça a pergunta certa antes de abrir o aplicativo
Antes de pegar o celular, pergunte: “o que eu quero saber agora?”. Se houver uma resposta clara, busque essa informação e feche. Se a resposta for “nada, só estou entediado”, o que você procura provavelmente é estímulo, e não notícia.
7. Tenha alternativas de estímulo à mão
Se o feed está suprindo uma necessidade de estímulo, é preciso oferecer outra fonte. Uma caminhada rápida, uma música, um jogo de tabuleiro, uma conversa ou um hobby manual podem cumprir esse papel com menos efeitos colaterais. Montar uma lista dessas opções é a proposta do menu de dopamina.
8. Não discuta no calor do momento
Se uma notícia ou um comentário provocar raiva, adote uma regra simples: nada de responder antes de 30 minutos. Na maioria das vezes, depois desse tempo, a vontade de responder já passou. Isso protege seus relacionamentos e evita arrependimentos.
9. Seja gentil consigo mesmo nos deslizes
Vai haver noites em que você vai rolar o feed até tarde. Isso não apaga o progresso. Em vez de se criticar, observe o que aconteceu: estava cansado, ansioso, entediado? Essas pistas ajudam a ajustar as estratégias.
Para um olhar mais amplo sobre o uso de celular e redes sociais, leia também TDAH e vício em telas.
Quando procurar ajuda profissional
As estratégias acima ajudam muita gente. Mas vale buscar apoio de um psicólogo ou psiquiatra quando:
- o uso do celular atrapalha o trabalho, os estudos ou o sono de forma frequente;
- você tenta reduzir e não consegue, mesmo com várias estratégias;
- a ansiedade, a irritação ou o desânimo depois de ler notícias estão durando dias;
- há brigas frequentes com pessoas próximas por causa do uso do celular ou de discussões online;
- você suspeita que tem TDAH e nunca passou por uma avaliação.
A terapia cognitivo-comportamental adaptada para TDAH trabalha exatamente essas questões: organização do tempo, controle de impulsos, regulação das emoções e construção de hábitos que funcionam para o seu cérebro, e não contra ele. Quando o TDAH é diagnosticado e tratado, fica mais fácil colocar em prática as estratégias de controle do uso do celular.
Conclusão
O doomscrolling não é sinal de fraqueza. É o encontro entre uma tecnologia desenhada para prender a atenção e um cérebro que tem mais dificuldade de regular o foco, os impulsos e as emoções. Entender esse mecanismo é o primeiro passo para sair da culpa e partir para estratégias concretas.
Você não precisa escolher entre estar informado e ter paz. Com horários definidos, fontes com começo e fim, menos notificações e um celular longe da cama, é possível acompanhar o que acontece no mundo sem que o mundo tome conta do seu dia.
Quer entender se o TDAH está por trás dessas dificuldades? Conheça o atendimento do psicólogo e neuropsicólogo Carlos Almada (CRP 07/42096), especialista em TDAH em adultos, em especialistaemtdah.com.br.
Perguntas frequentes sobre TDAH e doomscrolling
O que significa doomscrolling?
É o hábito de rolar a tela consumindo notícias negativas de forma repetida e prolongada, com dificuldade de parar, mesmo quando isso aumenta a ansiedade ou o mal-estar.
Doomscrolling é um vício?
O doomscrolling não é um diagnóstico oficial. Mas ele compartilha características com outros usos problemáticos da internet, como a dificuldade de controle e a continuidade apesar dos prejuízos. Quando atrapalha a vida, merece atenção profissional.
Por que quem tem TDAH não consegue largar o celular?
Porque o celular oferece novidade constante e recompensas imprevisíveis, justamente o tipo de estímulo que mais atrai um cérebro com alterações no sistema de recompensa. Somam-se a isso a dificuldade de controlar impulsos e de perceber a passagem do tempo.
O celular pode causar TDAH?
Não há evidência de que o celular cause o transtorno. As pesquisas mostram uma relação de mão dupla: pessoas com sintomas de TDAH tendem a usar mais as telas de forma problemática, e esse uso pode piorar sintomas como a desatenção.
Quanto tempo por dia é seguro ler notícias?
Não existe um número mágico. O mais importante é o controle: ler em horários definidos, com objetivo claro, e perceber se você termina mais informado ou só mais ansioso.
Desativar as redes sociais resolve?
Pode ajudar por um tempo, mas muitas pessoas voltam ao mesmo padrão depois. Costuma funcionar melhor reduzir o acesso com barreiras práticas e oferecer outras fontes de estímulo do que contar apenas com a proibição total.
Referências
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