“Preciso marcar a mamografia.” Essa frase pode ficar semanas, meses ou até anos na cabeça de muitas mulheres, sem nunca virar consulta marcada. Para quem tem TDAH, esse adiamento costuma ser ainda mais comum. Não por descuido com a própria saúde, mas porque cuidar de si exige justamente as habilidades que o TDAH torna mais difíceis: planejar, lembrar, começar e seguir até o fim.
Outubro é o mês do Outubro Rosa, a campanha de conscientização sobre o câncer de mama. Também é o Mês de Conscientização do TDAH, como explicamos em 12 mitos sobre TDAH. Este artigo une os dois temas para responder a uma pergunta prática: por que mulheres com TDAH adiam tanto os exames preventivos, e o que fazer para que a mamografia finalmente saia do papel?
Neste Artigo sobre Outubro Rosa e TDAH
Por que o Outubro Rosa importa
O câncer de mama é o tipo de câncer mais frequente entre as mulheres brasileiras, sem contar os tumores de pele não melanoma (Instituto Nacional de Câncer [INCA], 2022). Quando ele é descoberto cedo, as chances de tratamento bem-sucedido são muito maiores, e muitas vezes o tratamento é menos agressivo. Por isso, a detecção precoce é o centro da campanha.
O que mudou nas recomendações de mamografia no SUS
Em setembro de 2025, o Ministério da Saúde atualizou as orientações sobre a mamografia no Sistema Único de Saúde (CNN Brasil, 2025):
- De 40 a 49 anos: a mulher passou a ter acesso à mamografia pelo SUS mesmo sem sintomas, a cada dois anos, em decisão conversada com o profissional de saúde sobre benefícios e desvantagens.
- De 50 a 74 anos: a mamografia de rastreamento é recomendada a cada dois anos. Antes, o limite era 69 anos.
- A partir de 75 anos: a decisão depende das condições de saúde de cada mulher, avaliadas com o médico.
A Sociedade Brasileira de Mastologia recomenda a mamografia anual a partir dos 40 anos para mulheres de risco habitual. Mulheres com histórico familiar ou outros fatores de risco podem precisar de um acompanhamento diferente. A orientação certa para você deve sempre ser definida com seu médico ou ginecologista.
Saber a regra, porém, é só metade do caminho. A outra metade é conseguir transformar a informação em exame feito. E é aí que o TDAH entra na história.
Por que mulheres com TDAH adiam os exames preventivos
Marcar uma mamografia parece simples. Mas, quando olhamos de perto, ela envolve uma sequência longa de pequenas tarefas: lembrar que está na hora, procurar o pedido médico (ou marcar uma consulta para conseguir um), ligar ou entrar no aplicativo do plano, encontrar um horário, reorganizar a agenda, lembrar no dia, chegar no horário, buscar o resultado e levá-lo de volta ao médico. Cada etapa é uma oportunidade para o TDAH interromper o processo.
1. As funções executivas falham justamente nas tarefas “sem urgência”
O TDAH afeta as funções executivas, que são as habilidades usadas para planejar, iniciar tarefas, lembrar compromissos e manter o foco até o fim (Faraone et al., 2021). Esse sistema funciona melhor quando há urgência, interesse ou novidade. Um exame preventivo não tem nenhuma dessas três coisas: não dói, não tem prazo imediato e não é interessante. Para o cérebro com TDAH, ele cai na pilha do “depois eu vejo”.
2. A miopia temporal empurra o cuidado para o futuro
Muitas pessoas com TDAH vivem o tempo em dois blocos: “agora” e “não agora”. A mamografia sempre parece pertencer ao “não agora”. O risco de não fazer o exame é real, mas abstrato e distante, enquanto as demandas do dia são concretas e barulhentas. Esse fenômeno é conhecido como miopia temporal, explicado no artigo miopia temporal no TDAH.
3. A carga mental de cuidar de todo mundo
Muitas mulheres com TDAH, principalmente as que foram diagnosticadas tarde, passaram a vida compensando os sintomas com esforço extra. Elas organizam a casa, os filhos, o trabalho e muitas vezes a saúde de outros familiares. Quando a energia acaba, o primeiro item a sair da lista costuma ser o cuidado com elas mesmas. Esse padrão aparece com frequência na literatura sobre TDAH em mulheres (Young et al., 2020) e conversa com o que discutimos em TDAH em adultos e sobrecarga cognitiva.
4. Ansiedade e evitação
Para algumas mulheres, o problema não é só esquecer. É o medo do resultado. A ansiedade, muito comum junto com o TDAH, pode transformar o exame em algo que se prefere evitar: “se eu não fizer, não vou receber nenhuma notícia ruim”. A evitação traz um alívio momentâneo, mas aumenta a angústia ao longo do tempo. Entenda melhor essa relação em TDAH e ansiedade.
5. Sensibilidade ao desconforto
A mamografia envolve compressão das mamas e pode ser desconfortável. Mulheres com TDAH costumam relatar maior sensibilidade a estímulos físicos, como toque, pressão, barulho e luz. A lembrança de um exame desagradável pode virar mais um motivo para adiar o próximo. Falamos sobre isso em TDAH e hipersensibilidade.
6. Vergonha do atraso
Quanto mais tempo passa, maior a vergonha de voltar ao médico: “vão me perguntar por que não fiz antes”. Esse sentimento cria um ciclo em que o atraso alimenta a evitação, e a evitação alimenta o atraso. É o mesmo mecanismo da procrastinação no TDAH, que não tem a ver com preguiça, e sim com emoções difíceis associadas à tarefa.
O que as pesquisas mostram (e o que ainda não se sabe)
É importante ser honesto aqui: ainda existem poucos estudos que investigaram diretamente se mulheres com TDAH fazem menos mamografias. A ciência sobre TDAH em mulheres adultas é recente, e a saúde preventiva dessas mulheres é um campo pouco explorado. Mas algumas pistas ajudam a entender o cenário.
Hábitos de saúde e participação nos exames
Um grande estudo holandês acompanhou mais de 48 mil mulheres ao longo de quatro rodadas de exames preventivos de colo do útero. As mulheres que fumavam, bebiam com mais frequência, dormiam mal ou praticavam pouca atividade física tinham mais chance de fazer os exames de forma irregular ou de nunca fazê-los (Castañeda et al., 2023).
Esse dado é relevante porque vários desses hábitos são mais comuns em adultos com TDAH, como as dificuldades de sono e o tabagismo. Ou seja, o TDAH pode influenciar a participação nos exames de forma indireta, por meio do estilo de vida.
TDAH e saúde física
Uma revisão sistemática encontrou que adultos com TDAH têm mais problemas de saúde física associados, como distúrbios do sono e algumas condições metabólicas (Instanes et al., 2018). Os autores destacam a importância de os profissionais de saúde olharem para a pessoa com TDAH de forma integral, e não apenas para os sintomas de atenção.
Mulheres diagnosticadas tarde
O consenso internacional sobre TDAH em meninas e mulheres aponta que muitas recebem o diagnóstico apenas na vida adulta, depois de anos sendo tratadas apenas por ansiedade ou depressão (Young et al., 2020). Sem saber que têm TDAH, essas mulheres não contam com estratégias pensadas para o seu funcionamento, e o cuidado com a saúde fica ainda mais dependente de força de vontade. Veja mais em TDAH em mulheres adultas.
O que isso significa na prática
Não há motivo para alarme: ter TDAH não significa ter maior risco de câncer de mama. O ponto é outro. As dificuldades do TDAH podem fazer com que os exames preventivos sejam adiados, e é sobre isso que vale agir. A boa notícia é que esse obstáculo pode ser contornado com estratégias concretas.
Como não esquecer a mamografia: estratégias para quem tem TDAH
A ideia não é depender de memória ou de força de vontade. É montar um sistema que faça o trabalho por você. Escolha duas ou três estratégias abaixo para começar.
1. Faça agora o primeiro passo, por menor que seja
O TDAH tem mais dificuldade com o começo. Por isso, reduza a primeira etapa ao mínimo possível. Em vez de “marcar a mamografia”, a tarefa pode ser “procurar o telefone da clínica” ou “abrir o aplicativo do plano”. Se você está lendo este artigo agora, que tal fazer esse primeiro passo antes de fechar a página?
2. Marque na hora, ainda dentro do consultório
Sempre que receber um pedido de exame, peça para agendar ali mesmo, ou marque pelo celular antes de sair do consultório. Cada vez que o pedido vai para a bolsa, a chance de ele se perder aumenta.
3. Use uma data fixa e fácil de lembrar
Associe seus exames preventivos a uma data marcante, como o mês do seu aniversário ou o próprio Outubro Rosa. Quando o lembrete está ligado a algo que já existe na sua vida, fica mais difícil de esquecer.
4. Coloque lembretes fora da sua cabeça
O cérebro com TDAH não é um bom lugar para guardar compromissos. Coloque tudo do lado de fora:
- um alarme no celular para o dia do exame e outro para o dia anterior;
- um evento recorrente na agenda, a cada um ou dois anos, conforme a orientação do seu médico;
- um post-it no espelho ou na geladeira enquanto o exame não estiver marcado;
- uma foto do pedido médico salva em um álbum específico do celular.
5. Chame alguém para ir junto
Fazer o exame com uma amiga, irmã, mãe ou parceira transforma a tarefa em compromisso compartilhado. Esse tipo de apoio externo funciona muito bem para quem tem TDAH, porque traz uma responsabilidade que não depende só de você.
6. Prepare-se para o desconforto
Se a mamografia incomoda, converse com a equipe. Algumas dicas ajudam: agendar o exame para a semana seguinte à menstruação, quando as mamas costumam estar menos sensíveis, levar fones com música para a sala de espera e avisar a técnica sobre a sua sensibilidade.
7. Programe uma recompensa
O cérebro com TDAH responde bem a recompensas imediatas. Combine algo agradável para depois do exame: um café especial, um passeio, um momento só seu. Isso dá ao “agora” um motivo concreto para acontecer.
8. Inclua o resultado na lista
Muitas mulheres fazem o exame, mas esquecem de buscar o resultado ou de mostrá-lo ao médico. Coloque essa etapa como uma tarefa separada, com lembrete próprio.
9. Troque a culpa pela retomada
Se a última mamografia foi há muito tempo, não deixe a vergonha impedir o próximo passo. Profissionais de saúde recebem mulheres atrasadas todos os dias. O que importa é o que você faz a partir de hoje.
Para mais ideias de organização, leia como manter uma rotina com TDAH.
Além da mamografia: o autocuidado como um todo
O mesmo padrão que adia a mamografia costuma atingir outros cuidados: o exame preventivo ginecológico, a ida ao dentista, os exames de sangue de rotina, a consulta que “um dia” seria marcada. Se você se reconhece nessa descrição, talvez valha olhar para o conjunto, e não só para um exame isolado.
Uma estratégia útil é reunir todos os cuidados de saúde em uma única lista, com a data do último exame e a data prevista para o próximo. Revisar essa lista uma vez por ano, por exemplo em outubro, ajuda a manter tudo em dia sem precisar lembrar de cada item separadamente.
Conclusão
Adiar a mamografia não faz de você uma mulher descuidada. Muitas vezes, é o resultado de um cérebro que funciona melhor com urgência e interesse, tentando dar conta de uma tarefa que não tem nenhum dos dois. Entender isso ajuda a trocar a culpa por estratégia.
Neste Outubro Rosa, o convite é simples: dê o primeiro passo hoje, mesmo que pequeno. Marque, peça o pedido, coloque o lembrete, chame alguém para ir junto. Cuidar de si também é uma forma de cuidar de todas as pessoas que dependem de você.
E, se as dificuldades de organização atrapalham não só os exames, mas várias áreas da sua vida, pode ser hora de investigar se o TDAH está por trás delas. O artigo TDAH em mulheres é um bom ponto de partida.
Quer uma avaliação especializada? Conheça o atendimento do psicólogo e neuropsicólogo Carlos Almada (CRP 07/42096), especialista em TDAH em adultos, em especialistaemtdah.com.br.
Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação do seu médico ou ginecologista sobre os exames adequados para o seu caso.
Perguntas frequentes sobre Outubro Rosa e TDAH
Mulheres com TDAH têm mais risco de câncer de mama?
Não há evidência de que o TDAH aumente diretamente o risco de câncer de mama. A preocupação é com o adiamento dos exames preventivos, que pode atrasar o diagnóstico de qualquer problema.
A partir de que idade devo fazer mamografia?
Pelas orientações do Ministério da Saúde atualizadas em 2025, mulheres de 40 a 49 anos podem fazer o exame pelo SUS a cada dois anos, em decisão conversada com o profissional de saúde, e de 50 a 74 anos o rastreamento é recomendado a cada dois anos. A Sociedade Brasileira de Mastologia recomenda o exame anual a partir dos 40. A indicação para o seu caso deve ser definida com seu médico.
Por que é tão difícil marcar consultas quando se tem TDAH?
Porque marcar uma consulta envolve várias etapas que dependem das funções executivas: lembrar, planejar, iniciar a tarefa e organizar a agenda. Tarefas sem urgência e sem interesse imediato costumam ser as mais afetadas.
Remédio para TDAH interfere na mamografia?
Os medicamentos para TDAH não costumam interferir na realização da mamografia. Ainda assim, é sempre recomendável informar ao médico e à equipe do exame todos os medicamentos que você usa.
O que fazer se tenho medo do resultado?
O medo é compreensível e muito comum. Conversar com alguém de confiança, ir acompanhada e lembrar que a maioria dos exames não encontra alterações pode ajudar. Se a ansiedade estiver impedindo você de cuidar da saúde, vale buscar apoio psicológico.
Exame de toque substitui a mamografia?
Não. Conhecer o próprio corpo e observar mudanças é importante, mas o autoexame não substitui a mamografia, que pode detectar alterações antes que elas possam ser sentidas pelo toque.
Referências
Castañeda, K. M., Sidorenkov, G., [demais autores], & de Bock, G. H. (2023). Impact of health-related behavioral factors on participation in a cervical cancer screening program: The lifelines population-based cohort. BMC Public Health, 23, [número do artigo]. https://doi.org/10.1186/s12889-023-17293-0
CNN Brasil. (2025, 23 de setembro). Saúde passa a recomendar mamografia para mulheres a partir dos 40 anos. https://www.cnnbrasil.com.br/saude/saude-passa-a-recomendar-mamografia-para-mulheres-a-partir-dos-40-anos/
Faraone, S. V., Banaschewski, T., Coghill, D., Zheng, Y., Biederman, J., Bellgrove, M. A., et al. (2021). The World Federation of ADHD International Consensus Statement: 208 evidence-based conclusions about the disorder. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 128, 789–818. https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2021.01.022
Instanes, J. T., Klungsøyr, K., Halmøy, A., Fasmer, O. B., & Haavik, J. (2018). Adult ADHD and comorbid somatic disease: A systematic literature review. Journal of Attention Disorders, 22(3), 203–228. https://doi.org/10.1177/1087054716669589
Instituto Nacional de Câncer. (2022). Estimativa 2023: Incidência de câncer no Brasil. INCA.
Young, S., Adamo, N., Ásgeirsdóttir, B. B., Branney, P., Beckett, M., Colley, W., et al. (2020). Females with ADHD: An expert consensus statement taking a lifespan approach providing guidance for the identification and treatment of attention-deficit/hyperactivity disorder in girls and women. BMC Psychiatry, 20, 404. https://doi.org/10.1186/s12888-020-02707-9







