As canetas para perda de peso viraram assunto em todo lugar. E, nas redes sociais, começou a circular uma ideia curiosa: pessoas com TDAH dizendo que, depois de começar o Mounjaro, se sentiram mais focadas, menos impulsivas e com menos “barulho mental”. Alguns vídeos chegam a sugerir que o medicamento poderia ser um novo tratamento para o TDAH.
Será que isso faz sentido? O que a ciência realmente sabe sobre Mounjaro e TDAH? E quem já usa Venvanse ou Ritalina pode usar Mounjaro ao mesmo tempo?
Neste artigo, você vai entender o que é o Mounjaro, por que ele passou a ser associado ao TDAH, o que os estudos mostram até agora e quais cuidados são necessários para quem combina esse medicamento com o tratamento do TDAH.
Neste artigo sobre Mounjaro e TDAH
A resposta curta
- O Mounjaro não é um tratamento para TDAH. Ele é aprovado no Brasil para diabetes tipo 2 e para obesidade e sobrepeso com outras condições de saúde.
- Não existe nenhum ensaio clínico testando o Mounjaro, ou outros medicamentos da mesma família, para tratar os sintomas do TDAH.
- Os relatos de melhora são reais, mas não comprovam efeito. Eles podem ter outras explicações, como menos compulsão alimentar, melhora do sono ou do humor e mudanças no estilo de vida.
- Estudos observacionais recentes sugerem possíveis efeitos sobre humor e cognição, mas não mostraram melhora da atenção.
- Quem usa medicação para TDAH precisa de acompanhamento médico cuidadoso antes de usar Mounjaro, principalmente por causa da soma dos efeitos sobre o apetite.
Monjaro ou Mounjaro?
Muita gente procura o medicamento como “Monjaro”, mas o nome comercial correto é Mounjaro. O princípio ativo é a tirzepatida.
O que é o Mounjaro e como ele age
O Mounjaro é um medicamento injetável, aplicado uma vez por semana com uma caneta. Seu princípio ativo, a tirzepatida, imita a ação de dois hormônios produzidos naturalmente pelo intestino depois das refeições: o GLP-1 e o GIP. Esses hormônios ajudam a regular o açúcar no sangue, o apetite e o metabolismo (Conselho Federal de Farmácia, 2025b).
Na prática, o medicamento:
- aumenta a sensação de saciedade, fazendo a pessoa se sentir satisfeita com menos comida;
- reduz a fome e a vontade de comer entre as refeições;
- deixa o esvaziamento do estômago mais lento;
- ajuda a controlar a glicose em pessoas com diabetes.
Aprovação e regras no Brasil
O Mounjaro foi aprovado pela Anvisa para o tratamento do diabetes tipo 2 em setembro de 2023. Em junho de 2025, recebeu também a aprovação para tratar obesidade e sobrepeso com outras condições de saúde associadas (Conselho Federal de Farmácia, 2025b).
Desde junho de 2025, a compra de medicamentos dessa família nas farmácias exige receita médica, que fica retida no estabelecimento (Conselho Federal de Farmácia, 2025a). A regra foi criada para conter o uso sem acompanhamento, que vinha crescendo com a popularidade das canetas.
Por que ele age no cérebro
O GLP-1 não age só no intestino e no pâncreas. Há receptores para esse hormônio também no cérebro, inclusive em áreas ligadas ao sistema de recompensa, o mesmo sistema que usa a dopamina para regular a motivação e o prazer. É por isso que pesquisadores investigam se medicamentos dessa família poderiam influenciar comportamentos ligados à recompensa, como a vontade intensa de comer, beber ou fumar. Para entender esse sistema, leia o que é dopamina.
Essa ligação com o sistema de recompensa é o ponto de partida para a curiosidade sobre o TDAH, já que o transtorno também envolve diferenças no funcionamento da dopamina. Mas, como veremos, ter um mecanismo em comum não significa que o medicamento trate o TDAH.
Por que se fala tanto de Mounjaro e TDAH
A associação entre Mounjaro e TDAH não surgiu do nada. Ela tem algumas raízes que ajudam a entender por que tantas pessoas relatam mudanças.
1. TDAH, alimentação e peso andam juntos
Pesquisas mostram que adultos com TDAH têm maior risco de obesidade (Cortese et al., 2016) e de transtornos alimentares com episódios de compulsão (Nazar et al., 2016). A impulsividade, a busca por recompensa rápida, a dificuldade de planejar refeições e o hiperfoco que faz esquecer de comer contribuem para um padrão alimentar desorganizado. Explicamos essa relação em dieta para TDAH.
Isso significa que muitas pessoas com TDAH têm indicação real para usar medicamentos como o Mounjaro, por causa do peso ou do diabetes. E, ao usar, observam mudanças que vão além da balança.
2. O fim do “barulho da comida”
Um dos efeitos mais relatados por quem usa medicamentos dessa família é a redução do chamado “food noise”, ou “barulho da comida”: aqueles pensamentos repetitivos sobre comer, que ocupam a mente ao longo do dia. Para alguém com TDAH, cuja atenção já é disputada por muitos estímulos, perder uma dessas distrações constantes pode parecer uma melhora no foco.
3. Menos impulsividade com a comida
Como o medicamento reduz a fome e a vontade de comer, a pessoa pode sentir que está tomando decisões mais controladas sobre alimentação. É compreensível que isso seja interpretado como menos impulsividade em geral. Mas reduzir a impulsividade com a comida não é o mesmo que reduzir a impulsividade do TDAH em outras áreas da vida. Saiba mais em impulsividade no TDAH.
4. Efeitos indiretos de perder peso
Perder peso pode melhorar o sono, especialmente em quem tem apneia, além de aumentar a disposição, a autoestima e o humor. Todos esses fatores afetam a atenção e a capacidade de organização. Ou seja, parte da melhora relatada pode vir dessas mudanças, e não de um efeito direto sobre o TDAH.
5. O poder dos relatos nas redes sociais
Relatos pessoais são importantes e merecem ser ouvidos, mas têm limites. Quem teve uma experiência positiva tende a compartilhar mais do que quem não percebeu diferença. A expectativa de melhora também influencia como as pessoas percebem seus sintomas. Por isso, a ciência precisa de estudos controlados para saber o que é efeito do medicamento e o que é coincidência, expectativa ou consequência indireta.
O que dizem os estudos até agora
A pesquisa sobre Mounjaro e saúde mental está apenas começando. É importante separar o que já se sabe do que ainda é hipótese.
| Tipo de evidência | O que existe sobre Mounjaro, GLP-1 e TDAH |
|---|---|
| Ensaios clínicos com pessoas com TDAH | Nenhum até o momento |
| Estudos em animais | Sugerem efeitos sobre o sistema de recompensa |
| Relatos de caso | Poucos, com melhora de humor em pessoas com outras condições psiquiátricas |
| Estudos observacionais | Sugerem associação com menos ansiedade, depressão e sinais cognitivos, sem melhora da atenção |
| Relatos em redes sociais | Muitos, sem controle científico |
Nenhum ensaio clínico para TDAH
Até o fim de outubro de 2026, não há nenhum estudo controlado e randomizado, aquele em que um grupo recebe o medicamento e outro recebe placebo, testando o Mounjaro ou outros medicamentos da mesma família para tratar os sintomas do TDAH. Esse é o tipo de estudo necessário para afirmar que um remédio funciona para uma condição.
Relatos de caso: sinais interessantes, mas limitados
Em 2025, médicos americanos descreveram duas pacientes que tiveram melhora do humor depois de começar a usar tirzepatida. Uma delas tinha TDAH, depressão e ansiedade, e já usava um estimulante. A melhora relatada foi no humor, no sono e na autoconfiança, e não na atenção. Os próprios autores ressaltam que as pacientes usavam outros medicamentos ao mesmo tempo e que a satisfação com a perda de peso pode ter contribuído. Eles descrevem uma associação no tempo, e não uma relação de causa e efeito (Mudd & Rado, 2025).
Estudos observacionais: humor e cognição
Um estudo com registros eletrônicos de saúde nos Estados Unidos comparou pessoas com obesidade que começaram a usar tirzepatida ou semaglutida com pessoas que usaram outros medicamentos para perda de peso. Os usuários de tirzepatida e semaglutida tiveram menos diagnósticos novos de ansiedade e depressão ao longo de até dois anos. Por outro lado, na comparação direta entre os dois, a tirzepatida foi associada a um pouco mais de ansiedade e insônia em pessoas sem diabetes (Huang et al., 2026).
Outro estudo, com mais de 13 mil pessoas com diagnósticos psiquiátricos que usavam medicamentos para diabetes, encontrou que o uso de semaglutida, outro medicamento da mesma família, foi associado a menos sinais de problemas de memória e de outras funções cognitivas registrados pelos médicos. Mas, no caso específico da atenção, não houve diferença. O estudo não analisou o TDAH separadamente, e os autores destacam que são necessários ensaios clínicos para confirmar os resultados (De Giorgi et al., 2026).
Também há sinais de alerta
Nem todos os achados são positivos. Pesquisas com prontuários têm registrado sintomas como ansiedade e depressão em parte das pessoas que usam medicamentos dessa família, e os pesquisadores recomendam monitoramento cuidadoso da saúde mental durante o tratamento (Sa et al., 2026). A relação entre esses medicamentos e a saúde mental ainda está sendo investigada, e os resultados variam conforme o estudo.
Em resumo
Há motivos teóricos para pesquisar o Mounjaro e outros medicamentos parecidos no TDAH, principalmente pela ação no sistema de recompensa. Mas, hoje, não existe evidência de que eles melhorem a desatenção, a hiperatividade ou a impulsividade do TDAH. Qualquer afirmação nesse sentido é especulação.
Mounjaro junto com remédio para TDAH: quais os cuidados
Muitas pessoas com TDAH que têm indicação para o Mounjaro já usam medicamentos estimulantes, como o Venvanse ou a Ritalina. A combinação pode ser feita, mas exige acompanhamento médico atento. Os principais pontos de cuidado são estes:
1. Duas reduções de apetite somadas
Os estimulantes usados no TDAH costumam reduzir o apetite. O Mounjaro também. Juntos, eles podem fazer a pessoa comer muito pouco, sem perceber. Isso aumenta o risco de:
- perda de massa muscular, e não só de gordura;
- falta de vitaminas, minerais e proteínas;
- tontura, fraqueza e cansaço;
- irritabilidade e piora da concentração, justamente o contrário do esperado.
Comer por horário, e não por fome, e priorizar proteínas em cada refeição costumam ser recomendações importantes nesse caso. O acompanhamento com nutricionista ajuda muito. Veja estratégias práticas em dieta para TDAH.
2. Efeitos no estômago e no intestino
Náusea, vômitos, diarreia e prisão de ventre estão entre os efeitos colaterais mais comuns do Mounjaro, especialmente no início e a cada aumento de dose. Alguns estimulantes também podem causar desconforto no estômago. Beber água com regularidade é importante, já que vômitos e diarreia podem levar à desidratação.
3. Absorção de outros medicamentos
Como o Mounjaro deixa o esvaziamento do estômago mais lento, ele pode alterar a forma como outros medicamentos tomados por via oral são absorvidos. A bula orienta atenção especial aos anticoncepcionais orais: por um período após o início do tratamento e após cada aumento de dose, pode ser recomendado usar outro método contraceptivo junto (Agência Europeia de Medicamentos, s.d.). Converse com o médico sobre todos os remédios que você usa, incluindo os de TDAH.
4. Coração, sono e humor
Tanto os estimulantes quanto o Mounjaro podem aumentar um pouco a frequência cardíaca. Além disso, como vimos, há sinais de que a tirzepatida pode estar associada a um pouco mais de ansiedade e insônia em algumas pessoas. Para quem já lida com essas questões, vale observar com atenção e relatar ao médico. Veja também TDAH e sono e TDAH e ansiedade.
5. Histórico de transtornos alimentares
Pessoas com histórico de transtornos alimentares, especialmente os que envolvem restrição, precisam de avaliação cuidadosa antes de usar qualquer medicamento que reduza o apetite. Essa conversa deve envolver o médico e, idealmente, o psicólogo ou psiquiatra que acompanha o caso.
6. Nunca use sem receita
O Mounjaro é vendido com retenção de receita justamente para evitar o uso sem acompanhamento. Comprar canetas sem prescrição, de origem desconhecida ou importadas de forma irregular traz riscos sérios, incluindo produtos falsificados. E usar o Mounjaro como “tratamento para TDAH” por conta própria não tem qualquer base científica. Para conhecer os tratamentos comprovados, veja Venvanse ou Ritalina e remédios para TDAH.
Conclusão
O Mounjaro é um medicamento importante para o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, e muitas pessoas com TDAH podem ter indicação real para usá-lo. A curiosidade sobre seus efeitos no TDAH é compreensível: ele age em áreas do cérebro ligadas à recompensa, reduz o “barulho da comida” e pode melhorar o sono, o humor e a disposição.
Mas, até agora, a ciência não mostrou que o Mounjaro trate o TDAH. Não há ensaios clínicos sobre isso, os relatos de caso são poucos e os estudos observacionais não encontraram melhora da atenção. Parte das mudanças percebidas pode vir de efeitos indiretos, como menos compulsão alimentar, melhor sono e mais autoestima.
Para quem já usa medicação para TDAH, a combinação com o Mounjaro pede cuidado redobrado com a alimentação, a hidratação, o sono e o humor, sempre com acompanhamento médico. E, para quem busca tratamento para o TDAH, os caminhos comprovados continuam sendo a avaliação especializada, a psicoterapia e, quando indicada, a medicação específica para o transtorno.
Esse é um tema em plena evolução. À medida que novos estudos forem publicados, atualizaremos este artigo.
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Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação e a prescrição médica. Não inicie, troque ou interrompa medicamentos sem orientação do seu médico.
Perguntas frequentes sobre Mounjaro e TDAH
Mounjaro melhora o TDAH?
Não há evidência científica de que o Mounjaro melhore os sintomas do TDAH. Não existem ensaios clínicos sobre isso, e os estudos observacionais não mostraram melhora da atenção. Algumas pessoas relatam mudanças que podem estar ligadas a efeitos indiretos, como menos compulsão alimentar e melhor sono.
O Mounjaro pode substituir o Venvanse ou a Ritalina?
Não. O Mounjaro não é indicado para TDAH e não substitui os medicamentos específicos para o transtorno. Nunca interrompa o tratamento do TDAH por conta própria.
Posso usar Mounjaro e Venvanse juntos?
A combinação pode ser feita com acompanhamento médico. O principal cuidado é a soma dos efeitos sobre o apetite, que pode levar a comer muito pouco. Também é importante observar sono, ansiedade e frequência cardíaca.
Posso usar Mounjaro e Ritalina juntos?
Os mesmos cuidados valem para a Ritalina e outros medicamentos à base de metilfenidato. Informe ao médico todos os remédios que você usa antes de começar o Mounjaro.
O correto é Monjaro ou Mounjaro?
O nome comercial correto é Mounjaro. O princípio ativo é a tirzepatida, fabricada pela farmacêutica Eli Lilly.
Por que o Mounjaro parece diminuir o “barulho mental”?
Muitas pessoas relatam redução do chamado “barulho da comida”, os pensamentos repetitivos sobre comer. Isso pode liberar a mente de uma distração constante, o que algumas pessoas percebem como mais foco. Mas isso não significa que o medicamento trate o TDAH.
Precisa de receita para comprar Mounjaro?
Sim. Desde junho de 2025, a venda de medicamentos dessa família nas farmácias exige receita médica, que fica retida no estabelecimento.
Quem tem TDAH tem mais risco de obesidade?
Sim. Pesquisas mostram que adultos com TDAH têm maior risco de obesidade e de compulsão alimentar, o que ajuda a explicar por que muitos têm indicação para medicamentos como o Mounjaro.
Referências
Agência Europeia de Medicamentos. (s.d.). Mounjaro: Anexo I, resumo das características do medicamento. https://www.ema.europa.eu/pt/documents/product-information/mounjaro-epar-product-information_pt.pdf
Conselho Federal de Farmácia. (2025a, 16 de abril). Anvisa torna obrigatória a retenção de receita para compra de canetas emagrecedoras. https://site.cff.org.br/noticia/Noticias-gerais/16/04/2025/anvisa-torna-obrigatoria-a-retencao-de-receita-para-compra-de-canetas-emagrecedoras
Conselho Federal de Farmácia. (2025b, 9 de junho). Anvisa aprova Mounjaro para tratamento de obesidade e sobrepeso no Brasil. https://site.cff.org.br/noticia/Noticias-gerais/09/06/2025/anvisa-aprova-mounjaro-para-tratamento-de-obesidade-e-sobrepeso-no-brasil
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