Por décadas, presumiu-se que medicamentos estimulantes usados no tratamento do TDAH, como metilfenidato e anfetamina, atuavam diretamente sobre as redes cerebrais responsáveis pela atenção. Um estudo publicado na revista Cell em dezembro de 2025 e divulgado pelo NIH em janeiro de 2026 desafia essa ideia.
Pesquisadores da Washington University em St. Louis analisaram dados de ressonância magnética funcional de quase 5.800 crianças entre 8 e 11 anos, parte do estudo Adolescent Brain Cognitive Development (ABCD), incluindo 337 que haviam tomado estimulante na manhã do exame. Em vez de alterar as redes ligadas à atenção, os estimulantes modificaram a atividade em redes cerebrais associadas ao estado de alerta (vigília) e à recompensa e motivação. Um experimento complementar com cinco adultos saudáveis, avaliados com e sem estimulante, confirmou o mesmo padrão.
O achado mais interessante para a prática clínica: o efeito dos estimulantes se assemelhou ao que se observa quando uma pessoa dorme melhor. Entre as crianças com TDAH, o medicamento melhorou notas escolares e desempenho cognitivo principalmente naquelas que tinham sono insuficiente, o que sugere uma interação importante entre qualidade do sono e resposta ao tratamento medicamentoso.
O que isso muda na prática? Reforça algo que já defendemos aqui no TDAH Brasil: avaliar e tratar problemas de sono é parte essencial do manejo do TDAH, não um complemento opcional. Também ajuda a entender, de forma mais intuitiva, por que estimulantes reduzem a inquietação, eles tornam tarefas pouco interessantes mais “recompensadoras” o suficiente para sustentar o esforço, e não porque “ligam” um centro de atenção que estaria desligado.
Referência: Kay, B. P., Wheelock, M. D., Siegel, J. S., Raut, R. V., Chauvin, R. J., Metoki, A., … Dosenbach, N. U. F. (2025). Stimulant medications affect arousal and reward, not attention networks. Cell, 188(26), 7529-7546. https://doi.org/10.1016/j.cell.2025.11.039






