Abrir a lista de tarefas do dia e sentir uma espécie de paralisia é uma experiência comum entre adultos com TDAH. A dificuldade de priorizar tarefas é uma das queixas mais frequentes no consultório, e não é falta de vontade nem falta de organização no sentido tradicional. É que, diante de dez tarefas, o cérebro com TDAH frequentemente não consegue produzir a informação mais básica de todas: qual delas fazer primeiro. Todas parecem urgentes, todas parecem importantes, e a sobrecarga que isso gera muitas vezes termina em evitação, em trocar de tarefa a cada poucos minutos ou em procrastinar o dia inteiro sem conseguir sequer começar.
Essa dificuldade em organizar e priorizar tarefas não é um traço de personalidade, é uma manifestação direta da disfunção executiva característica do TDAH. Esse artigo explica, com base no funcionamento das funções executivas, por que priorizar costuma ser um dos pontos mais difíceis do dia a dia para quem tem TDAH, e apresenta a Matriz de Eisenhower, adaptada em três passos (listar, numerar e agrupar), como uma solução prática para essa dificuldade específica. A proposta não exige aplicativos nem sistemas complexos, apenas uma folha de papel e um critério claro de decisão, o que costuma ser exatamente o que falta quando a mente já está sobrecarregada.
Neste Artigo sobre a Dificuldade de Priorizar Tarefas no TDAH
Por que a disfunção executiva torna tão difícil priorizar tarefas no TDAH
Priorizar parece, à primeira vista, uma tarefa simples de organização. Na prática, priorizar exige que várias funções executivas trabalhem juntas ao mesmo tempo: reter as tarefas na memória de trabalho, estimar quanto tempo cada uma vai levar, comparar sua importância relativa e resistir ao impulso de começar pela mais chamativa em vez da mais necessária. Pesquisas sobre disfunção executiva no TDAH descrevem exatamente esse conjunto de dificuldades práticas: comprometimento da atenção sustentada, dificuldade em iniciar tarefas, empobrecimento da estimativa de tempo e dificuldade de lidar simultaneamente com tarefas que variam em grau de relevância e prioridade (Saboya et al., 2007).
Três fatores em particular explicam por que a priorização costuma travar:
Memória de trabalho sobrecarregada. Manter cinco, dez ou quinze tarefas na cabeça ao mesmo tempo, comparando importância e prazo de cada uma sem registrá-las em algum lugar, exige uma capacidade de memória de trabalho que serve justamente para manter informações ativas enquanto se executa uma tarefa; quando essa função apresenta dificuldades, a capacidade de organizar etapas e lidar com múltiplas informações simultâneas fica comprometida. Quando essa função está sobrecarregada, todas as tarefas competem pela atenção ao mesmo tempo, sem hierarquia clara.
Percepção de tempo distorcida. Muitos adultos com TDAH relatam dificuldade genuína em sentir a diferença entre um prazo que vence amanhã e um que vence em três semanas. Sem essa diferenciação interna, uma tarefa de longo prazo pode gerar a mesma ansiedade imediata que uma de curto prazo, o que faz com que praticamente tudo pareça urgente ao mesmo tempo.
Intensidade emocional das tarefas. No TDAH, a decisão de começar uma tarefa costuma ser guiada mais pela carga emocional que ela desperta (interesse, urgência percebida, medo de consequência) do que por uma análise racional de importância. Isso explica por que é comum responder rapidamente a uma mensagem no celular e adiar por semanas uma tarefa objetivamente mais importante, mas emocionalmente menos estimulante.
O resultado prático dessas três dificuldades é bem descrito na literatura sobre o tema: as maiores dificuldades não vêm de falta de capacidade, e sim de desafios nas funções que sustentam a rotina, como organizar tarefas, manter a atenção, planejar e priorizar, o que frequentemente se traduz em procrastinação, perda de prazos e a sensação de estar sempre apagando incêndios em vez de agir de forma planejada.
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A Matriz de Eisenhower como solução para a dificuldade de priorizar
Diante desse quadro de disfunção executiva, faz sentido buscar uma ferramenta externa que assuma parte do trabalho que a mente sozinha tem dificuldade de fazer. É aqui que entra a Matriz de Eisenhower, uma ferramenta de organização que separa tarefas em quatro grupos, cruzando dois critérios: urgência (o quanto o prazo está próximo) e importância (o quanto a tarefa contribui para um objetivo real). A ideia tem origem em uma frase atribuída ao ex-presidente americano Dwight D. Eisenhower, dita em um discurso de 1954, sobre existirem dois tipos de problemas, os urgentes e os importantes, sendo que os urgentes raramente são importantes e os importantes raramente são urgentes. O formato de grade 2×2 que se usa hoje, no entanto, não foi criado por Eisenhower: ele foi formalizado décadas depois por Stephen Covey em seu livro Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes, publicado em 1989, quando Covey transformou essa distinção em um método prático com uma ação associada a cada quadrante (Covey, 1989).
Na versão clássica, os quatro quadrantes são:
- Quadrante 1: Urgente e importante. Fazer agora.
- Quadrante 2: Importante, mas não urgente. Agendar.
- Quadrante 3: Urgente, mas não importante. Delegar ou agrupar.
- Quadrante 4: Nem urgente, nem importante. Eliminar.

A lógica por trás da matriz é simples: a maior parte da sobrecarga do dia a dia vem de viver reagindo ao quadrante 1 e ao quadrante 3, que são urgentes, enquanto o quadrante 2, que é onde ficam as tarefas realmente importantes para o médio e longo prazo, acaba sendo empurrado para depois indefinidamente. Para o cérebro típico, esse já é um problema comum. Para o cérebro com TDAH, ele costuma ser ainda mais acentuado, porque a percepção distorcida de urgência (descrita na seção anterior) faz com que tarefas do quadrante 3 e até do quadrante 4 sejam sentidas com a mesma urgência do quadrante 1.
Adaptando a Matriz de Eisenhower para o cérebro com TDAH: o método dos 3 passos
O problema da Matriz de Eisenhower tradicional é que ela pede para a pessoa fazer duas avaliações ao mesmo tempo, urgência e importância, e já decidir a posição exata de cada tarefa dentro de uma grade visual. Para quem tem dificuldade de memória de trabalho, esse duplo julgamento simultâneo é justamente o tipo de tarefa que trava o processo antes mesmo de começar.
A adaptação proposta aqui separa o processo em três passos sequenciais e simples, cada um exigindo apenas uma decisão por vez.

Passo 1: Liste tudo em uma folha
Pegue uma folha de papel e escreva todas as tarefas pendentes, sem se preocupar com ordem, formatação ou relevância. O único objetivo deste passo é tirar as tarefas da cabeça e colocá-las no papel, no que costuma ser chamado de despejo cerebral (brain dump). Isso é importante porque, enquanto uma tarefa existe apenas na memória, ela consome recursos de atenção só para não ser esquecida. Uma vez registrada no papel, esse recurso é liberado.
Algumas orientações práticas para este passo:
- Não julgue as tarefas enquanto escreve. Anote reuniões, mensagens pendentes, contas a pagar, tarefas de trabalho, compromissos pessoais e até pequenas pendências que estão incomodando, mesmo que pareçam pouco importantes.
- Escreva frases curtas e específicas (“responder e-mail do cliente X”, não apenas “e-mails”).
- Se a lista ficar longa, tudo bem. O objetivo aqui não é ter poucas tarefas, é ter todas elas visíveis.
Passo 2: Atribua um número conforme a localização na matriz
Agora, e só agora, volte à lista e, ao lado de cada tarefa, escreva um número de 1 a 4, correspondente ao quadrante onde ela se encaixa:
- 1 = urgente e importante
- 2 = importante, mas não urgente
- 3 = urgente, mas não importante
- 4 = nem urgente, nem importante
O ponto-chave desta etapa é que a pessoa avalia uma tarefa por vez, em vez de tentar posicionar todas simultaneamente dentro de uma grade. Isso transforma uma decisão complexa e abstrata (onde essa tarefa fica dentro de um plano cartesiano de urgência e importância) em uma decisão simples e concreta (esse número faz mais sentido para essa tarefa específica). Para tarefas em que a dúvida persistir entre dois números, a orientação prática é perguntar: “se eu não fizer isso hoje, existe uma consequência real e imediata?” Se a resposta for sim, tende a ser 1 ou 3. Se for não, tende a ser 2 ou 4.
Passo 3: Agrupe os números e organize a execução
Por fim, reescreva a lista organizada por número, colocando primeiro todas as tarefas marcadas com 1, depois as marcadas com 2, depois as de número 3 e, por último, as de número 4. Esse agrupamento visual transforma uma lista desordenada em um plano de ação claro:
- As tarefas número 1 são feitas primeiro, no mesmo dia.
- As tarefas número 2 são agendadas para um horário ou dia específico, nunca deixadas soltas (“depois eu faço”), porque tarefas importantes sem data marcada raramente saem do papel.
- As tarefas número 3 são agrupadas e feitas em bloco, ou delegadas quando possível, já que costumam ser pequenas interrupções que interrompem o foco se forem atendidas uma a uma ao longo do dia.
- As tarefas número 4 são reavaliadas com um olhar crítico: muitas podem simplesmente sair da lista.
O ganho principal deste terceiro passo é reduzir a troca constante de contexto, um dos maiores ladrões de produtividade no TDAH. Ao executar todas as tarefas do mesmo grupo em sequência, a pessoa evita alternar repetidamente entre modos mentais diferentes, o que, para um cérebro que já tem dificuldade com flexibilidade cognitiva, representa uma economia real de energia mental.
Exemplo prático: aplicando o método em um dia real
Para tornar o processo mais concreto, veja como ficaria a lista de um dia de trabalho comum antes e depois da aplicação do método.
Passo 1, lista bruta:
Entregar relatório para o gestor, responder mensagens no grupo do trabalho, marcar consulta com o dentista, pagar a conta de luz que vence hoje, organizar a mesa de trabalho, estudar para a prova de sexta-feira, ligar para a mãe, revisar o e-mail de um cliente insatisfeito, assistir a um vídeo sobre produtividade, atualizar a planilha de gastos do mês.
Passo 2, com números atribuídos:
- Entregar relatório para o gestor (1)
- Responder mensagens no grupo do trabalho (3)
- Marcar consulta com o dentista (2)
- Pagar a conta de luz que vence hoje (1)
- Organizar a mesa de trabalho (4)
- Estudar para a prova de sexta-feira (2)
- Ligar para a mãe (2)
- Revisar o e-mail de um cliente insatisfeito (1)
- Assistir a um vídeo sobre produtividade (4)
- Atualizar a planilha de gastos do mês (3)
Passo 3, lista final agrupada:
- Fazer agora (1): entregar relatório, pagar conta de luz, revisar e-mail do cliente insatisfeito.
- Agendar (2): marcar consulta com o dentista, estudar para a prova (bloco de estudo à tarde), ligar para a mãe (à noite).
- Agrupar/delegar (3): responder mensagens do grupo e atualizar a planilha de gastos, ambas em um único bloco de quinze minutos no fim do dia.
- Eliminar (4): organizar a mesa de trabalho e assistir ao vídeo sobre produtividade saem da lista de hoje e voltam apenas se sobrar tempo.
Note que, dez tarefas que pareciam igualmente urgentes na lista bruta se transformam em apenas três prioridades reais para o início do dia, com o restante distribuído de forma realista ao longo da semana.
Por que esse método funciona bem com o TDAH
A principal razão pela qual essa adaptação costuma funcionar melhor do que a matriz tradicional, ou do que aplicativos de produtividade genéricos, é que ela transforma um processo interno e abstrato em um processo externo e visual. No TDAH, estratégias que dependem apenas de memória, força de vontade ou disciplina tendem a falhar não por falta de esforço, mas porque a própria função executiva que sustentaria essa disciplina é a que está comprometida. Estruturas externas, como uma folha de papel com números visíveis, fazem o trabalho que a função executiva teria dificuldade de fazer sozinha.
Além disso, dividir o processo em três decisões pequenas e sequenciais, em vez de uma única decisão complexa, respeita o funcionamento real da memória de trabalho no TDAH. E o agrupamento final por número reduz o custo de troca de contexto, permitindo blocos de execução mais longos e menos fragmentados.
Erros comuns ao usar a matriz com TDAH
Alguns padrões costumam comprometer o método, mesmo quando a intenção é boa:
Marcar quase tudo como número 1. Quando a maioria das tarefas recebe o número mais urgente, o método perde a função de filtro. Vale revisar o critério: consequência real e imediata, não apenas desconforto de adiar.
Buscar perfeição na categorização. Algumas tarefas realmente ficam na fronteira entre dois números. Nesses casos, a orientação é escolher o número que exige ação mais imediata e seguir em frente, em vez de travar tentando encontrar a classificação perfeita.
Abandonar o método após o primeiro uso. É comum experimentar a técnica uma vez, sentir alívio imediato e depois esquecer de repeti-la. Como listas perdem validade rapidamente, o valor do método está na repetição, não em uma única lista bem-feita.
Nunca revisitar o quadrante 2. Tarefas importantes, mas não urgentes, são as que mais se acumulam silenciosamente ao longo do tempo. Sem uma revisão semanal, elas tendem a ficar paradas indefinidamente até se tornarem, de repente, urgentes.
Dicas para manter o hábito
Para que o método não vire mais uma boa ideia esquecida depois de alguns dias, algumas estratégias ajudam:
- Associe a um hábito já existente (habit stacking): fazer a lista logo depois do café da manhã ou antes de abrir o computador, em vez de tentar lembrar em um horário aleatório.
- Mantenha a folha visível, em cima da mesa ou colada em um lugar de fácil acesso, em vez de guardada em uma gaveta ou em um aplicativo que exige abrir o celular.
- Reserve quinze minutos por semana para uma revisão mais completa, olhando especialmente para as tarefas do quadrante 2 que ainda não foram agendadas.
- Aceite listas imperfeitas. O objetivo é ter clareza suficiente para agir, não produzir um sistema impecável.
Quer aprender melhor a usar a Matriz de Eisenhower para o TDAH? Existe uma aula completa no nacaotdah.com.br para ajudar sua produtividade, com exemplos práticos e orientação passo a passo para aplicar o método no seu dia a dia.
Quando buscar apoio profissional
Para algumas pessoas, dificuldades de priorização persistem mesmo com estratégias práticas bem aplicadas, especialmente quando estão associadas a sintomas mais amplos de desatenção, impulsividade ou desorganização que afetam diferentes áreas da vida. Nesses casos, uma avaliação neuropsicológica com um especialista em TDAH pode ajudar a entender melhor o perfil de funções executivas envolvido, e o acompanhamento psicoterapêutico, incluindo abordagens voltadas especificamente para função executiva, pode auxiliar na construção de estratégias personalizadas de organização e priorização. Para conhecer o trabalho clínico por trás deste conteúdo, você pode visitar o perfil profissional de Carlos Almada, e para quem busca apoio contínuo na aplicação dessas estratégias no dia a dia, a comunidade Nação TDAH reúne ferramentas práticas e trocas entre pessoas que enfrentam os mesmos desafios.
Conclusão
A dificuldade de priorizar tarefas no TDAH não é um problema de caráter, disciplina ou vontade. É uma consequência direta de como as funções executivas relacionadas à memória de trabalho, à percepção de tempo e à regulação emocional funcionam nesse perfil neurológico. A Matriz de Eisenhower, quando adaptada em três passos simples, listar, numerar e agrupar, transforma um processo mental complexo e sobrecarregante em uma sequência de decisões pequenas e concretas, apoiadas em papel em vez de depender apenas da memória. O resultado não é uma lista perfeita, mas uma lista possível de seguir, o que, no fim das contas, é o que realmente importa.
Perguntas frequentes sobre a Dificuldade de Priorizar Tarefas no TDAH
A Matriz de Eisenhower funciona para quem tem TDAH? Sim, desde que seja adaptada. A versão clássica exige julgar urgência e importância ao mesmo tempo, o que sobrecarrega a memória de trabalho. A adaptação em três passos, listar, numerar e agrupar, separa essas decisões em etapas menores, o que reduz a carga cognitiva e facilita o uso por pessoas com TDAH.
Por que pessoas com TDAH sentem que tudo é urgente? Isso acontece porque dificuldades na percepção de tempo tornam mais difícil sentir a diferença entre um prazo distante e um prazo próximo. Sem essa diferenciação interna, tarefas de curto e longo prazo competem pela atenção com a mesma intensidade emocional.
Preciso usar um aplicativo para aplicar esse método? Não. O método foi pensado justamente para funcionar com papel e caneta, eliminando o atrito de abrir um aplicativo, configurar categorias e sincronizar dispositivos antes mesmo de começar a priorizar.
Com que frequência devo refazer a matriz? O ideal é uma revisão curta no início de cada dia e uma revisão mais completa uma vez por semana, já que listas antigas perdem relevância rapidamente no TDAH.
O que fazer quando quase todas as tarefas parecem número 1? Vale perguntar, para cada tarefa, se ela tem consequência real e imediata caso não seja feita hoje. Tarefas que geram apenas desconforto, mas não consequência concreta, tendem a pertencer aos quadrantes 2 ou 3, não ao 1.
Referências
Covey, S. R. (1989). The 7 habits of highly effective people: Powerful lessons in personal change. Free Press.
Instituto NeuroSaber. (2026). TDAH e funções executivas: o que está por trás das dificuldades. https://institutoneurosaber.com.br/artigos/tdah-e-funcoes-executivas-o-que-esta-por-tras-das-dificuldades/
McGough, J. J., & Barkley, R. A. (2004). Diagnostic controversies in adult attention deficit hyperactivity disorder. American Journal of Psychiatry, 161(11), 1948-1956.
Saboya, E., Franco, C. A., Souza, I., Sarmento, S., & Fontenelle, L. (2007). Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade em adultos. Jornal Brasileiro de Psiquiatria.
Willcutt, E. G. (2005). Behavioral and neuropsychological functioning in attention-deficit/hyperactivity disorder. Journal of Clinical Psychiatry.







