Você recebe um comentário simples, como “dá para ajustar esse parágrafo?”, e de repente sente um aperto no peito. A respiração muda, o rosto esquenta e a cabeça começa a repetir a cena sem parar. Horas depois, você percebe que a reação foi muito maior do que o fato, mas isso não impediu a dor.
Se essa experiência parece familiar e você tem TDAH, é possível que esteja vivendo o que vem sendo chamado de disforia sensível à rejeição, ou RSD (sigla do inglês Rejection Sensitive Dysphoria).
O termo ficou muito popular nas redes sociais, e com a popularidade vieram também os exageros. Por isso, nesta versão atualizada, separo com cuidado três coisas: o que a ciência já mostra, o que ainda é observação clínica e o que você pode fazer na prática a partir de hoje.
Resposta rápida: a disforia sensível à rejeição é uma reação emocional intensa, rápida e dolorosa diante de uma rejeição, crítica ou sensação de fracasso, seja ela real ou apenas percebida. Ela não é um diagnóstico oficial no DSM-5-TR nem na CID-11. É entendida como uma das formas que a desregulação emocional, muito comum no TDAH, pode assumir. E tem manejo: informação de qualidade, psicoterapia (especialmente a Terapia Cognitivo-Comportamental), estratégias de regulação emocional e, em alguns casos, ajustes no tratamento medicamentoso feitos pelo médico.
Neste artigo sobre Disforia Sensível à Rejeição – DSR
O que é a Disforia Sensível à Rejeição (RSD)?
A disforia sensível à rejeição é uma reação emocional desproporcional e muito dolorosa à percepção de que você foi rejeitado, criticado ou decepcionou alguém importante. A palavra “disforia” vem do grego e significa algo como “difícil de suportar”. Ela descreve bem o que as pessoas relatam: não é a tristeza comum depois de uma crítica, é uma dor que parece tomar conta do corpo e da mente por um tempo.
Um ponto central é a palavra percepção. A rejeição não precisa ter acontecido de fato. Uma mensagem respondida com atraso, um “ok” seco ou uma expressão neutra no rosto de alguém podem ser suficientes para disparar a reação.
De onde vem o termo
O conceito foi popularizado pelo psiquiatra norte-americano William Dodson a partir dos anos 1990, em palestras, entrevistas e textos para o público. Ele descreve a RSD como uma das manifestações mais disruptivas e comuns da desregulação emocional em pessoas com TDAH, com base na sua experiência clínica. Em um artigo de 2016, Dodson relata que cerca de um terço dos adolescentes e adultos que ele atende aponta a RSD como a parte mais difícil de conviver com o TDAH.
É importante saber que essa é uma observação de consultório, valiosa, mas que ainda não foi confirmada por grandes estudos.
Sensibilidade à rejeição e RSD não são exatamente a mesma coisa
A psicologia estuda a sensibilidade à rejeição desde os anos 1990. No modelo clássico de Downey e Feldman (1996), ela envolve três elementos: esperar a rejeição com ansiedade, perceber rejeição com muita facilidade e reagir a ela com intensidade. Essa característica não é exclusiva do TDAH. Ela também aparece com frequência na depressão, no transtorno de personalidade borderline e no transtorno dismórfico corporal.
A RSD, como descrita por Dodson, seria a forma mais extrema e dolorosa dessa sensibilidade, ligada especificamente ao funcionamento emocional do TDAH.
A RSD é um diagnóstico?
Não. A disforia sensível à rejeição não aparece no DSM-5-TR (o manual diagnóstico da Associação Americana de Psiquiatria) nem na CID-11 (a classificação da Organização Mundial da Saúde). O DSM-5-TR, porém, reconhece como características associadas ao TDAH a baixa tolerância à frustração, a irritabilidade e a instabilidade do humor.
Ainda não existe um questionário validado para medir a RSD. Pesquisadores apontam que criar esse instrumento é o próximo passo necessário para saber com precisão o que ela é e quantas pessoas afeta.
Características principais
- Dor emocional súbita e intensa logo depois de uma crítica, rejeição ou sensação de fracasso.
- Expectativa ansiosa de rejeição, mesmo quando nada aconteceu.
- Leitura de sinais neutros como negativos, como um silêncio, um tom de voz ou uma mensagem curta.
- Reação para dentro, com vergonha, autocrítica pesada, choro ou isolamento.
- Reação para fora, com raiva, explosões ou respostas impulsivas que depois geram arrependimento.
- Estratégias de proteção que cobram um preço, como tentar agradar todo mundo, perfeccionismo ou desistir de oportunidades para não correr o risco de ser recusado.
RSD, ansiedade social e transtornos de humor: qual a diferença?
A principal diferença está no tempo: a RSD costuma ser rápida para começar e rápida para passar, sempre ligada a um gatilho identificável. A tabela abaixo resume as distinções mais usadas na clínica. Ela serve como guia, não como teste, porque essas diferenças ainda não foram validadas por pesquisas comparativas.
| Aspecto | RSD no TDAH | Ansiedade social | Depressão ou transtorno bipolar |
|---|---|---|---|
| Como começa | De forma súbita, logo após o gatilho | Antes, durante e depois de situações sociais | De forma gradual, ao longo de dias ou semanas |
| Gatilho | Quase sempre existe um (crítica, recusa, sensação de ter falhado) | Situações em que a pessoa pode ser observada ou avaliada | Pode não haver um gatilho claro |
| Duração | Geralmente horas, às vezes um ou dois dias | Persiste enquanto as situações temidas continuam | Semanas ou meses |
| Foco da dor | Ter decepcionado ou sido rejeitado | Medo de passar vergonha ou ser julgado | Humor persistentemente baixo (ou elevado, no bipolar) |
E o transtorno de personalidade borderline?
A sensibilidade à rejeição também é marcante no transtorno de personalidade borderline, que envolve medo intenso de abandono, relações instáveis e mudanças rápidas de humor. Como as duas condições compartilham intensidade emocional e impulsividade, a diferenciação exige uma avaliação cuidadosa, feita por um profissional.
As condições podem acontecer juntas
Vale lembrar que uma pessoa com TDAH pode ter, ao mesmo tempo, ansiedade social ou depressão. Uma coisa não exclui a outra. Por isso, a pergunta mais útil não é “isso é RSD ou ansiedade?”, e sim “o que está acontecendo comigo, e o que ajuda em cada parte?”.
Por que pessoas com TDAH são mais sensíveis à rejeição?
Não existe uma causa única. As evidências apontam para uma combinação de três fatores: um “freio emocional” que funciona de outro jeito, um cérebro que registra a rejeição social com mais força e uma história de vida com muitas críticas.
1. A desregulação emocional faz parte do TDAH para muita gente
Regular emoções é a capacidade de perceber o que se sente, segurar a reação por alguns segundos e escolher como responder. No TDAH, essa habilidade costuma ser mais difícil, assim como a atenção e o controle dos impulsos.
Uma revisão publicada no American Journal of Psychiatry estimou que entre 30% e 70% dos adultos com TDAH têm dificuldades importantes de regulação emocional (Shaw et al., 2014). Outra revisão concluiu que os sintomas emocionais são comuns e persistentes em jovens e adultos com TDAH, e que a impulsividade emocional poderia até ser considerada parte dos critérios diagnósticos no futuro (Faraone et al., 2019).
Na prática, é como se a emoção chegasse inteira, de uma vez, antes que o lado racional tivesse tempo de dizer “calma, talvez não seja isso”.
2. O cérebro registra a rejeição social como uma dor real
Dizer que uma crítica “dói” não é apenas força de expressão. Um estudo clássico com exames de imagem mostrou que ser excluído de um jogo virtual ativa regiões cerebrais também envolvidas no processamento da dor física (Eisenberger et al., 2003). Isso vale para todos os seres humanos, não só para quem tem TDAH.
O que parece mudar no TDAH é a intensidade. Em um estudo com 391 adolescentes de 10 a 15 anos, quanto mais sintomas de TDAH, mais forte era a resposta cerebral a uma rejeição de colegas e mais fraca a resposta à aceitação (Babinski et al., 2019). Em linguagem simples: a rejeição “soa mais alto” e a aceitação “soa mais baixo”.
3. Uma longa história de críticas
Quem tem TDAH geralmente ouve, desde a infância, frases como “você não presta atenção”, “de novo esqueceu?” ou “você não se esforça”. Um estudo com 162 adultos com TDAH ou traços altos de TDAH mostrou que os comportamentos mais criticados eram os ligados à desatenção, enquanto a impulsividade era mais criticada em contextos sociais. Os participantes relataram que essas críticas afetaram sua autoestima e seu bem-estar (Beaton et al., 2022).
Com o tempo, o cérebro aprende a esperar a crítica. E passa a procurar sinais dela em todo lugar.
4. Esperar a rejeição pode doer mais do que a rejeição em si
Um estudo qualitativo publicado em 2026 ouviu estudantes universitários com TDAH sobre suas experiências. Todos os participantes concordaram que a expectativa de ser rejeitado causava mais sofrimento do que a rejeição propriamente dita. Os relatos se organizaram em três temas: afastamento das pessoas, masking (esconder o que se sente para ser aceito) e sensações físicas intensas, como aperto no peito e náusea (Rowney-Smith et al., 2026).
O que a ciência ainda não sabe
A honestidade aqui é importante. Você provavelmente já leu que “99% das pessoas com TDAH têm RSD”. Esse número é uma estimativa clínica de Dodson, baseada na sua prática, e não o resultado de uma pesquisa com amostra representativa.
O que os estudos mostram até agora é mais modesto:
- Um levantamento de 2026, feito pela psicóloga clínica Gilly Kahn, identificou apenas cinco estudos que investigam a RSD diretamente. Todos são qualitativos (baseados em entrevistas) e têm entre 4 e 43 participantes (Kahn, 2026).
- No maior deles, 33 dos 43 jovens adultos com TDAH entrevistados (cerca de 77%) relataram dificuldades com a RSD (Ginapp et al., 2023).
- Nem todo estudo encontra a associação. Uma pesquisa com 78 universitários do sexo masculino não encontrou mais sensibilidade à rejeição no grupo com TDAH do que no grupo sem o transtorno (Canu & Carlson, 2007).
Ou seja: a experiência é real e muito relatada, mas ainda não sabemos com precisão quantas pessoas com TDAH a vivem nem por que algumas sentem e outras não.
Sinais de disforia sensível à rejeição: como identificar
Os sinais abaixo ajudam a reconhecer o padrão, mas não substituem uma avaliação. O que mais chama atenção é a combinação de intensidade, rapidez e um gatilho ligado a crítica ou rejeição.
Em adultos
- Mudanças bruscas e intensas de humor depois de um comentário, uma recusa ou um silêncio.
- Passar horas, às vezes dias, repassando mentalmente uma conversa.
- Autocrítica muito dura, com pensamentos como “sou um fracasso” ou “todo mundo vai perceber que eu não presto”.
- Evitar pedir feedback, enviar currículos, mostrar um trabalho ou convidar alguém para sair.
- Dificuldade de receber elogios, porque parecem aumentar a cobrança.
- Sensações físicas fortes, como aperto no peito, nó na garganta, náusea ou calor no rosto.
- Explosões de choro ou de raiva, seguidas de vergonha.
- Necessidade constante de agradar e dificuldade de dizer “não”.
Em crianças e adolescentes
- Reação muito intensa, com choro ou agressividade, a pequenas correções.
- Desistir rapidamente de jogos ou tarefas depois de errar.
- Afastar-se dos colegas por medo de ser deixado de lado.
- Ficar “na defensiva” diante de qualquer orientação de pais ou professores.
- Frases como “ninguém gosta de mim” depois de um conflito pequeno.
Nas crianças, esses sinais se misturam com o desenvolvimento normal e com outras condições. Por isso, a avaliação deve ser feita por um profissional que conheça TDAH infantil.
Impactos da RSD na vida real
A disforia sensível à rejeição raramente fica restrita ao momento da crise. Com o tempo, as estratégias para evitar a dor passam a moldar decisões importantes.
Saúde emocional e mental
A convivência repetida com críticas e com a dor da rejeição está associada a mais ansiedade, sintomas depressivos e solidão. Pesquisas com adultos com TDAH mostram que a autocompaixão costuma ser mais baixa nesse grupo, em parte porque eles percebem mais críticas, e que essa autocompaixão reduzida ajuda a explicar a pior saúde mental (Beaton, 2022).
Atenção: se em algum momento a dor emocional vier acompanhada de pensamentos de não querer mais viver, procure ajuda imediatamente. No Brasil, o CVV atende de graça, 24 horas, pelo telefone 188 ou pelo chat em cvv.org.br. Em emergências, ligue para o SAMU (192).
Relacionamentos
- Interpretar atrasos, esquecimentos ou o cansaço do parceiro como falta de amor.
- Reagir de forma explosiva a uma crítica e depois sentir culpa.
- Esconder necessidades para não desagradar, até chegar ao limite.
- Afastar-se das pessoas antes que elas “tenham a chance” de rejeitar.
Se a irritação é o que mais aparece no seu caso, vale ler também o artigo sobre TDAH e irritabilidade.
Trabalho e estudos
- Ouvir um feedback construtivo como se fosse uma demissão anunciada.
- Procrastinar por medo de entregar algo imperfeito.
- Não expor ideias em reuniões ou em sala de aula.
- Deixar de buscar promoções, vagas ou projetos novos para não ouvir um “não”.
Esse padrão ajuda a explicar por que muitos adultos com TDAH, mesmo muito capazes, vivem com a sensação de estar sempre aquém do que poderiam. O tema aparece também no artigo sobre TDAH em adultos inteligentes.
Como é feita a avaliação
Não existe exame de sangue, de imagem ou questionário específico para diagnosticar a disforia sensível à rejeição. O reconhecimento é clínico, feito por um psicólogo ou psiquiatra a partir de:
- Entrevista detalhada sobre como as reações emocionais acontecem, quanto duram e o que as dispara.
- Avaliação do TDAH, incluindo a história desde a infância. A avaliação neuropsicológica ajuda a entender o perfil de atenção, memória de trabalho e controle inibitório.
- Diagnóstico diferencial, para separar ou identificar a presença conjunta de depressão, transtorno bipolar, ansiedade social, transtorno de personalidade borderline e efeitos de experiências traumáticas.
O objetivo não é colocar mais um rótulo, e sim entender o funcionamento da pessoa para escolher o tratamento certo.
Como lidar com a disforia sensível à rejeição: tratamentos e estratégias
O melhor resultado costuma vir da combinação de quatro frentes: entender o que acontece, aprender habilidades em terapia, cuidar do tratamento do TDAH como um todo e contar com pessoas que apoiam.
1. Psicoeducação: dar nome muda a experiência
Saber que essa reação tem relação com o funcionamento do TDAH, e não com fraqueza ou “frescura”, costuma reduzir a culpa. No estudo de 2026, os próprios participantes sugeriram que mais compreensão e acolhimento por parte de professores, empregadores e profissionais diminuiriam a intensidade da RSD (Rowney-Smith et al., 2026). Para começar pelo básico, veja o guia O que é TDAH.
2. Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) com foco em regulação emocional
A TCC adaptada para o TDAH ajuda a trabalhar o que acontece antes e depois da crise:
- Identificar gatilhos e os pensamentos automáticos que surgem com eles (“ela não respondeu porque está chateada comigo”).
- Testar esses pensamentos com perguntas simples: “que outras explicações existem?”, “o que eu diria a um amigo nessa situação?”.
- Treinar habilidades de regulação emocional, muitas delas emprestadas da Terapia Comportamental Dialética (DBT), como nomear a emoção e tolerar o desconforto sem agir de imediato.
- Expor-se aos poucos ao feedback, em situações seguras, para que o cérebro reaprenda que crítica não é ameaça.
- Desenvolver comunicação assertiva, para pedir esclarecimentos em vez de presumir o pior.
Um ponto que merece destaque é a autocompaixão. Em um estudo controlado com adultos com TDAH, aumentar a autocompaixão teve efeito positivo na saúde mental (Beaton, 2022). Aprender a falar consigo mesmo com mais gentileza é uma habilidade treinável, não um traço de personalidade.
Dodson argumenta que, no pico da crise, a terapia sozinha nem sempre consegue “desligar” a dor. Faz sentido: as habilidades da terapia funcionam melhor para prevenir, encurtar e reparar a crise do que para impedir a primeira onda. Se você já tentou TCC e sentiu que não funcionou, leia por que muita gente desiste da TCC no TDAH adulto.
3. Medicação: o que se sabe até agora
Não existe um remédio específico para a disforia sensível à rejeição. O que existe são algumas evidências e muita observação clínica:
- Medicações para o TDAH, como estimulantes e atomoxetina, tendem a reduzir a instabilidade emocional em adultos, com efeito de pequeno a moderado, segundo uma meta-análise (Moukhtarian et al., 2017).
- Agonistas alfa-2, como guanfacina e clonidina, são usados por alguns médicos para a RSD com base em experiência clínica, como a relatada por Dodson. Ainda faltam ensaios clínicos controlados feitos especificamente para a RSD.
Qualquer decisão sobre medicação é médica e individual. Não inicie, suspenda ou altere remédios por conta própria. Para entender o tratamento de forma ampla, veja o artigo sobre tratamento para TDAH em adultos.
4. O que fazer no momento da crise
Quando a onda emocional chega, o objetivo não é fazê-la sumir, e sim atravessá-la sem tomar decisões que você vai lamentar depois.
- Nomeie o que está acontecendo: “isso é a minha sensibilidade à rejeição falando”. Só dar nome já reduz um pouco a intensidade.
- Pause antes de responder. Se possível, adie e-mails, mensagens e conversas difíceis por algumas horas.
- Acalme o corpo primeiro: respiração lenta, com a expiração mais longa que a inspiração, uma caminhada curta ou lavar o rosto.
- Separe fato de interpretação: escreva o que foi dito, palavra por palavra, e depois o que você concluiu. Muitas vezes há uma distância grande entre os dois.
- Adie decisões importantes, como pedir demissão ou terminar um relacionamento, para quando a emoção baixar.
- Procure alguém de confiança para checar a sua leitura da situação.
5. Estratégias para o dia a dia
- Durma o suficiente. Cansaço e privação de sono aumentam a reatividade emocional.
- Combine como prefere receber feedback, por exemplo por escrito, com exemplos concretos e com tempo para pensar antes de responder.
- Registre seus gatilhos por algumas semanas. Padrões aparecem e ficam mais previsíveis.
- Pratique mindfulness para observar a emoção sem ser arrastado por ela.
- Invista em relações seguras e, se possível, em grupos de apoio com outras pessoas com TDAH, para diminuir a sensação de estar sozinho.
Exemplo prático (situação ilustrativa)
Seu chefe diz: “precisamos melhorar esse relatório”. Na hora, sua mente traduz: “ele acha que eu sou incompetente e vou ser demitido”. Vem o aperto no peito, a vontade de chorar ou de responder de forma ríspida, e o resto do dia fica comprometido.
Aplicando o que vimos:
- Reconheça o gatilho: um feedback sobre um documento, não sobre você como pessoa.
- Separe fato de interpretação: o fato é “o relatório precisa de ajustes”. A conclusão “vou ser demitido” é uma hipótese, não um dado.
- Acalme o corpo antes de responder: alguns minutos de respiração ou uma volta rápida.
- Peça clareza: “quais pontos você gostaria que eu ajustasse primeiro?”. Isso transforma uma ameaça vaga em uma tarefa concreta.
- Fale consigo como falaria com um amigo: “errar um relatório é normal, e corrigir faz parte do trabalho”.
Como familiares e parceiros podem ajudar
- Dê feedback em particular, de forma específica e equilibrada, apontando também o que está bom.
- Evite ironias e comparações, que costumam ser percebidas como crítica disfarçada.
- Valide a emoção (“percebo que isso te machucou”) antes de discutir os fatos.
- Combine com a pessoa um sinal para pausar conversas que estão esquentando.
- Lembre que acolher não significa concordar com tudo: limites claros e gentis também são cuidado.
O artigo sobre família e TDAH traz mais orientações para quem convive com o transtorno.
Quando procurar ajuda profissional
Vale buscar um psicólogo ou psiquiatra com experiência em TDAH quando:
- as reações à crítica ou à rejeição atrapalham o trabalho, os estudos ou os relacionamentos;
- você deixa de tentar coisas importantes por medo de ouvir um “não”;
- as crises acontecem com frequência ou deixam você sem funcionar por horas ou dias;
- você suspeita de TDAH, mas nunca foi avaliado;
- você já trata o TDAH, mas a parte emocional continua sem melhora.
Se o custo for uma barreira, veja onde encontrar atendimento psicológico gratuito ou social no Brasil ou consulte a lista de psicólogos especialistas em TDAH.
Perguntas frequentes sobre disforia sensível à rejeição
A disforia sensível à rejeição é um diagnóstico oficial?
Não. Ela não consta no DSM-5-TR nem na CID-11. É um termo clínico usado para descrever uma forma intensa de desregulação emocional, frequentemente relatada por pessoas com TDAH.
Toda pessoa com TDAH tem RSD?
Não necessariamente. O número de 99% que circula na internet é uma estimativa clínica, não um dado de pesquisa. Estudos mostram que a desregulação emocional afeta entre 30% e 70% dos adultos com TDAH, e que a RSD é muito relatada, mas sua frequência exata ainda é desconhecida.
Quem não tem TDAH pode ter disforia sensível à rejeição?
A sensibilidade intensa à rejeição também aparece na depressão, no transtorno de personalidade borderline, no autismo e em pessoas com histórico de rejeição na infância. O termo RSD foi criado pensando no TDAH, mas a experiência não é exclusiva dele.
Quanto tempo dura uma crise de RSD?
Nos relatos clínicos, a crise começa de forma súbita e costuma durar algumas horas, podendo se estender por um ou dois dias. Se o humor fica rebaixado por semanas, é importante avaliar a possibilidade de depressão.
Existe remédio para disforia sensível à rejeição?
Não há medicação específica aprovada para a RSD. O tratamento do TDAH pode reduzir a instabilidade emocional, e alguns médicos usam agonistas alfa-2 com base em experiência clínica. A decisão é sempre médica e individual.
Terapia funciona para RSD?
Sim, especialmente para reduzir a frequência das crises, encurtar sua duração e diminuir o estrago depois delas. A TCC com foco em regulação emocional, o treino de autocompaixão e o mindfulness são as abordagens mais usadas.
Como saber se é RSD ou ansiedade social?
Na ansiedade social, o medo aparece principalmente antes e durante situações em que a pessoa pode ser avaliada. Na RSD, o destaque é a dor intensa e súbita depois de uma crítica ou rejeição percebida. As duas podem coexistir, e um profissional pode ajudar a separar o que é o quê.
Conclusão sobre disforia sensível à rejeição
A disforia sensível à rejeição descreve uma dor real, rápida e intensa diante da crítica e da rejeição, vivida por muitas pessoas com TDAH. A ciência ainda está no começo para medi-la, mas já mostra que a desregulação emocional é comum no transtorno, que o cérebro registra a rejeição social como dor e que uma vida inteira de críticas deixa marcas.
Entender a RSD como parte do funcionamento neurobiológico do TDAH, e não como fraqueza de caráter, é o primeiro passo para reduzir a culpa. O tratamento mais eficaz costuma combinar:
- psicoeducação sobre o TDAH e a regulação emocional;
- psicoterapia, especialmente TCC com foco em emoções e autocompaixão;
- estratégias práticas para o momento da crise e para o dia a dia;
- apoio de pessoas próximas;
- medicação, quando indicada pelo médico.
Você sente que suas emoções ficam intensas demais depois de uma crítica? Isso pode ser parte do seu TDAH, e tem manejo. Conheça o atendimento especializado em TDAH adulto.
Leia também
- TDAH e Irritabilidade: por que a irritação explode tão rápido
- TDAH em Mulheres: sintomas específicos, diagnóstico tardio, hormônios e tratamento
- As 3 características do TDAH que quase ninguém reconhece
- 12 dicas de produtividade para adultos com TDAH
- TDAH e exercícios: qual a intensidade ideal para melhorar a função executiva?
Referências
American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.). https://doi.org/10.1176/appi.books.9780890425787
Babinski, D. E., Kujawa, A., Kessel, E. M., Arfer, K. B., & Klein, D. N. (2019). Sensitivity to peer feedback in young adolescents with symptoms of ADHD: Examination of neurophysiological and self-report measures. Journal of Abnormal Child Psychology, 47(4), 605–617. https://doi.org/10.1007/s10802-018-0470-2
Beaton, D. M. (2022). The role of self-compassion in adults with attention deficit hyperactivity disorder (ADHD) [Tese de doutorado, University of Sheffield]. White Rose eTheses Online. https://etheses.whiterose.ac.uk/32045/
Beaton, D. M., Sirois, F., & Milne, E. (2022). Experiences of criticism in adults with ADHD: A qualitative study. PLOS ONE, 17(2), e0263366. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0263366
Canu, W. H., & Carlson, C. L. (2007). Rejection sensitivity and social outcomes of young adult men with ADHD. Journal of Attention Disorders, 10(3), 261–275. https://doi.org/10.1177/1087054706288106
Dodson, W. W. (2016, outubro). Emotional regulation and rejection sensitivity. Attention. CHADD. https://chadd.org/wp-content/uploads/2016/10/ATTN_10_16_EmotionalRegulation.pdf
Downey, G., & Feldman, S. I. (1996). Implications of rejection sensitivity for intimate relationships. Journal of Personality and Social Psychology, 70(6), 1327–1343. https://doi.org/10.1037/0022-3514.70.6.1327
Eisenberger, N. I., Lieberman, M. D., & Williams, K. D. (2003). Does rejection hurt? An fMRI study of social exclusion. Science, 302(5643), 290–292. https://doi.org/10.1126/science.1089134
Faraone, S. V., Rostain, A. L., Blader, J., Busch, B., Childress, A. C., Connor, D. F., & Newcorn, J. H. (2019). Practitioner review: Emotional dysregulation in attention-deficit/hyperactivity disorder: Implications for clinical recognition and intervention. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 60(2), 133–150. https://doi.org/10.1111/jcpp.12899
Ginapp, C. M., Greenberg, N. R., MacDonald-Gagnon, G., Angarita, G. A., Bold, K. W., & Potenza, M. N. (2023). “Dysregulated not deficit”: A qualitative study on symptomatology of ADHD in young adults. PLOS ONE, 18(10), e0292721. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0292721
Kahn, G. (2026, 29 de abril). Rejection sensitivity dysphoria: The actual research. Psychology Today. https://www.psychologytoday.com/us/blog/if-i-be-waspish/202604/rejection-sensitivity-dysphoria-the-actual-research
Moukhtarian, T. R., Cooper, R. E., Vassos, E., Moran, P., & Asherson, P. (2017). Effects of stimulants and atomoxetine on emotional lability in adults: A systematic review and meta-analysis. European Psychiatry, 44, 198–207.
Rowney-Smith, A., Sutton, B., Quadt, L., & Eccles, J. A. (2026). The lived experience of rejection sensitivity in ADHD: A qualitative exploration. PLOS ONE, 21(1), e0314669. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0314669
Shaw, P., Stringaris, A., Nigg, J., & Leibenluft, E. (2014). Emotion dysregulation in attention deficit hyperactivity disorder. American Journal of Psychiatry, 171(3), 276–293. https://doi.org/10.1176/appi.ajp.2013.13070966
World Health Organization. (2022). International classification of diseases for mortality and morbidity statistics (11th rev.). https://icd.who.int/







